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15 de junho de 2020

A ponte da Varela e a Cicloria da série O meu quintal

Uma das primeiras zonas no Norte de Portugal a ser afetada pela pandemia de Covid-19, foi a de Ovar. Cercada sanitariamente durante cerca de um mês, com as estradas cortadas por barreiras metálicas ou de cimento, algumas até com patrulhamento policial, esteve fechada ao mundo e do mundo. Sim, há o Telefone, o Zoom, o WhatsApp, mas somos Portugueses e como tal gente de afetos, de coração, de olhos nos olhos. Custou muito. Mas hoje estão abertas as “grades”. Aos poucos a vida retorna ao que agora preferimos chamar nova normalidade, mesmo sem sabermos muito bem o que tal significa. Depois de tanto tempo fechados, isolados, prisioneiros ainda que no nosso próprio lar, aceitamos de bom grado o pouco que venha. Mesmo ali ao lado fica um dos maiores areais a Norte, a praia de S. Jacinto, que em conluio com a Ria de Aveiro, escondem uma maravilhosa estrada, pouco retorcida mas com um magnifico espelho de água sempre ao lado.

Escolhemos em mais uma fase de desconfinamento motociclístico ir até lá.

Tragada a via rápida que nos tira da urbe, a N109 começa a animar-nos e deságua-nos no inicio da N327, onde o Restaurante Areinho, embora abandonado há muito, mantem à sua volta um espaço aprazível e sossegado para esticarmos as pernas.

Algumas curvas a seguir e encontramo-nos com uns amigos que vieram de mais a sul. Desde Fevereiro que não tinha estado numa esplanada de um café. Com o sol e a companhia dos amigos a aquecer-nos, espraiamos o olhar por onde já não andam moliceiros na labuta. Agora só servem turistas e claro, estão todos parados.

Foto de Rogério

Foto de David

Foto de David


Atravessamos a Torreira e fomos à praia. A imensidão do areal deixa respirar, deixa correr, deixa gritar. Brincamos a desafiar as ondas que quebravam na areia, apanhamos sol com equipamentos de segurança meio vestidos. Não, não falo de mascaras, viseiras e afins. Os motociclistas desde há muito que se protegem. Usam luvas, capacetes onde só cabe um e na estrada vão a bem mais de dois metros de distância. Mesmo na praia mantivemos os cuidados e não foi por isso que gostamos menos.


Foto de Rogério

Foto de Rogério

Foto de Rogério

Foto de Rogério

Fomos almoçar. Não em restaurante. À boa maneira portuguesa levamos farnel. Do lado da estrada oposto à ria, estende-se a Reserva Natural das Dunas de S. Jacinto. Além de bons trilhos para caminhadas, existem também aqui locais preparados para uma paragem gastronômica. Cada um levou o seu repasto. A única partilha foi a do fogareiro, que no final nos aconchegou com um café quente.

Foto de Rogério

Foto de Rogério

Foto de Rogério

Foto de Rogério

Foto de Rogério

Foto de David

Um teve de regressar nesta altura e os restantes decidiram atravessar na ponte da Varela entrando na CicloRia. Um caminho mesmo ao nível das águas que entra pela Murtosa e serpenteia com a água agora a estibordo. No Cais da Bestida tiram-se fotos em moliceiros e passa-se a caminho de terra. Mama Parda, Ameirinhos e o caminho fica estreito. Estaciona-se, sobe-se ao passadiço onde só se ouve o vento. Banhamos-nos de paz.

Foto de Rogério


Foto de Rogério







Sempre em ritmo reticente, pois ali é que se estava bem, voltamos à via rápida que nos levou a casa, mas não sem antes termos comprado umas cerejas na beira da estrada, com toda a certeza por desinfetar. Vendidas por um rapaz de mascara cirúrgica com o nariz de fora, que nos faz saber que mesmo ao nosso lado estavam o Presidente da Republica Portuguesa e respetivo Primeiro-ministro, acompanhados de uma comitiva de uma centena de pessoas, provavelmente encarregues da desinfeção preliminar do caminho, que como nós tinham vindo celebrar a liberdade. Duvido que tenham conseguido pois não vieram de mota.

Obrigado à minha companhia de estrada.

21 de maio de 2020

Duas rodas pós-apocalípticas

14 Maio 2020.
Oito semanas e quatro dias depois, recomeço a exigir a minha rotina de volta.
Sem demasiadas esperanças de que o problema tenha sido debelado por decreto, mas consciente da necessidade de viver, volto a procurar o ar livre.
Sozinho, distante e protegido.









As ultimas curvas antes do Apocalipse


10 Março 2020.
De novo eu e os estarolas do costume combinamos em 5 minutos mais uma vadiagem.
Que tal até Amarante e depois perdermos-nos por lá? Nem foi preciso dizer duas vezes.


Chegados à antiga ponte sobre o Tâmega, é impossível resistir a não parar e usufruir do ambiente. Após um pequeno almoço numa famosa confeitaria local, troca-se duas de conversa, espreita-se a Biblioteca e a Igreja de S. Gonçalo, onde há quase 28 anos esperei no altar pela minha mulher.

Imagem por Rogério

Imagem por Rogério

Imagem por Rogério

Combina-se seguir o IP4 e desviar para Aboadela, marco importante por altura das invasões francesas, tendo ocorrido aqui uma das mais violentas batalhas de então, com a derrota das tropas francesas contra três corpos de cavalaria portuguesa.

Imagem por Rogério





Imagem por Rogério

Imagem por Rogério

Após este momento de historia e contemplação da ponte de fundo de rua e maravilhosas margens,  rumamos a Vila Real onde nos foi servido um delicioso repasto, como é já habito em terras para lá do Marão. Imaginávamos lá nós que seria a nossa ultima visita a um restaurante, até pelo menos finais da Primavera!
De volta à estrada fomos espreitar a Torre de Quintela, citada por Castelo Branco, com liberdade literária, como um dos cenários do romance "O Anátema".



Aqui bem perto estava a Barragem da Albufeira do Alvão que mereceu de igual forma uma paragem.
Pelo Parque Natural do Alvão seguimos a Lamas de Olo e Ermelo onde apanhamos a também já famosa N304, que acabou por nos levar ao IP4 para o regresso a casa.

Imagem por Rogério

Imagem por Rogério

Imagem por Rogério


A liberdade é muitas coisas, apresenta-se de muitas formas e esconde-se normalmente atrás das escolhas mais simples.


“Don’t know what you got (till it’s gone)”🎶 😢

3 de dezembro de 2019

Gerês Recon 1




Gosto de serra.
Gosto da solidão dos sítios altos e pouco acessíveis, adoro as estradinhas que nos levam lá e perco-me a explorar pequenas aldeias ainda estão em estado quase natural.
Andar de mota por estes locais é um incrível catalisador de sensação de liberdade. Levar umas sandes, passar por lá um dia e voltar com a alma cheia.
Como área protegida, o Gerês tem tudo isto e muito mais. Especialmente saindo dos locais mais conhecidos e explorados.
A uma hora em auto-estrada (mal necessário) do Porto, resolvi ir fazer um primeiro reconhecimento.
Quase fugi ao ver a confusão de gente na vila com o mesmo nome, mas como tinha levado no GPS um track com alguns pontos interessantes, rapidamente saí das estradas conhecidas e embrenhei-me por caminhos que nem sabemos existirem. Apesar de também haverem estradas limpas, nesta altura do ano a maior parte está cheia de água, terra e folhas. Para onde quer que olhasse via pinheiros, teixos, castanheiros, carvalhos e água, muita água. Por todo o lado existem pequenas quedas de água, fontes e silêncio.
Uma ainda mais pequena estrada encaminha-me a Ermida, uma aldeia serrana com uma forte tradição pastoril, onde a criação de gado tem ainda um peso elevado na economia local. Deambulo em paz pelas suas estreitas ruelas, livres de turistas. Acabo por voltar à estrada maior. Curva após curva, sigo por Fafião e Pincães até Cabril. Tinha vindo tarde e era já mias que hora de almoço. Deparo com um pequeno restaurante, o Ponte Nova (BINA) onde por uma sopa, vitela de cortar à colher, torta de laranja, água, café, simpatia e disponibilidade me pedem 7€. Recomendo.
Por hoje chegaria de reconhecimento.
Atravesso para Frades e sigo pela margem sul do Rabagão até Alqueirão, ainda conseguindo percorrer mais uma ou duas daquelas estradas que aparecem a branco nos mapas.