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10 de outubro de 2018

Serra da Freita da série O Meu Quintal

Passear é preciso.
Conhecer locais diferentes, distantes, exóticos é formidável. Mas porque não conhecer primeiro o nosso quintal? É que amiúde existem locais maravilhosos mesmo ao virar da esquina e o Norte do nosso país têm muitas dessas pérolas à nossa espera.
A Serra da Freita é um bom exemplo.


Apenas a umas dezenas de Km´s do Porto, pela maravilhosa EN 108 que acompanha o Rio Douro chegamos a Castelo de Paiva onde nos aguarda a EN224. Este troço de estrada é um paraíso para os motociclistas, com um bom piso que agrega em 20 Km´s mais de 300 curvas! Uma delicia!



Pouco depois começamos a subir até aos 1085m num percurso igualmente sinuoso. Começa-se a ouvir o silêncio e fecha-se o casaco melhor. A paisagem é deslumbrante e num dia claro "you can see forever". Absorvo o local enquanto me passeio pela pequena aldeia do Merujal.







Munido do meu "kit do passeante" uso um local de merendas para aquecer o almoço. O silêncio vicia.




Continuo mais um pouco até à conhecida Frecha da Mijarela, mesmo ali ao lado. O vale impressiona. Começo a descer a minúscula estrada. Desisto a meio e volto a subir. É demasiado isolada para se fazer sozinho e com o telemóvel sem sinal. Fica para a próxima









 Hora de regressar, por uma via mais rápida apesar de menos interessante, mas que me permitiu aproveitar o tempo até à ultima.





19 de agosto de 2018

L.I.C.E.T. por Uz e Moscoso da série O Meu Quintal

Depois de um interregno usado para ajustes vários na vida de cada um, os 3 membros fundadores do famoso LICET juntaram-se para uma passeata recheada de boa disposição, boas estradas, praia, serra e aldeias remotas. Nenhum foi de Lambretta!!
Em Janeiro de 2016 tinha ido na minha Vespa conhecer a aldeia de Uz. Prometi na altura voltar para conhecer um ou outro recanto mais daquelas serras.
Tinha comigo um track parcial daquele passeio, gravado com um relógio de corrida. Algumas horas em frente ao computador e completei um percurso que poderia ser interessante. O Sérgio o o Hugo concordaram.
Dez da manhã arrancavam do Porto uma Honda Transalp 600, uma Honda 450 Super Sport DOHC e uma Vespa Cosa 200. Começaríamos com uma ligação de uns 70 Km's em autoestrada até perto do Arco de Baúlhe, provavelmente maçadores... julgávamos nós!
Metade do troço feito e a Cosa espirra. Decidimos dar-lhe pouca atenção e continuar viagem. Zangada, resolve repetir o espirro, numa subida sem berma nem sombra, que é para aprendermos. Preparávamos-nos para lhe espreitar nas entranhas, quando o Hugo, qual Gentleman do cimo da sua distinta CB DOHC, constata o óbvio. E descermos para onde há berma?! Por vezes é preciso vir numa máquina com pedigree para demonstrar esta clareza de raciocínio... Ao fim e ao cabo foi aquele modelo que nos anos 60 destronou o reinado ocidental das motos inglesas, sendo mais rápida, mais eficiente, mais económica que as de terras de Sua Majestade. E não pingava óleo! Adicionalmente em 2011 fez o meu carro largar a água toda, mas isso é outra história.
O arquitecto lá espreita debaixo da saia da coisa, digo Cosa, encontrando rapidamente um filtro de ar entupido com esponja!!! Ao que parece, no pináculo da tecnologia Italiana, a Piaggio teve a ideia peregrina de incluir um pré-filtro de ar totalmente inacessível algures debaixo do depósito, em esponja! O tempo e o óleo encarregaram-se de o desfazer. Tão lentamente que durante o dia foi necessário levar a cabo amiúdes manobras de limpeza do mesmo. Lá seguimos sem mais espinhas até ao final da AE, onde começou verdadeiramente a diversão. N206 até um pouco depois de Esturrado e saída para a M518 sempre a subir e com curvas maravilhosas. Nestes lugares percebe-se como somos um país de contrastes. Saídos há poucos Km's do rebuliço do trânsito, damos por nós numa estrada mais que secundária, vazia, com um maravilhoso silêncio por companhia. O dia estava quente, mas começa a refrescar quando uma tabuleta anuncia os 1400m. A vegetação muda radicalmente. O alcatrão desaparece e reaparece. Em cada cruzamento que passamos seguimos pela opção mais estreita, inclinada e com pior piso. Percebemos que estamos num caminho usado por gado. Cuidado que aquilo escorrega! Após uma elevação aparece UZ, antes conhecida por Casal da Urzeira, devido à quantidade de urze que existe nos seus montes. É uma pequena aldeia típica de casas de pedra, onde ainda se podem ver construções cobertas com telhados de colmo. Deambulando pelas suas ruas estreitas, somos como que transportados para uma época remota. Contamos dez tractores e dois carros. De matricula estrangeira, não estivéssemos em Agosto. Seguimos caminho à procura do desvio que levaria ao Nariz do Mundo. Caminho de terra, não muito difícil e desembocamos num planalto com uma paisagem de cortar a respiração. Resolvemos almoçar por ali a refeição leve que levávamos, pois a ultima coisa que nos apetecia era enfiarmos-nos num qualquer restaurante cheio de gente. Pudemos assim desfrutar da paz que ali se vive, numa refrescante sombra. Regresso à estrada e mesmo à entrada de Moscoso a Transalp espirra levemente. Ignoro-a. Paramos no restaurante da terra para tomar café. Estava cheio e com um calor e barulho insuportável. Abençoamos a ideia do pique nique e quando já reabastecidos de cafeína, fomos abordados por um rapaz que nos pergunta se as Honda bonitas que estavam lá fora eram nossas. Confessou-se um apaixonado por motas a trabalhar no Mónaco enquanto nos mostrava fotos da sua Africa-Twin nova. Agradecemos e apressamos-nos a sair daquela confusão. Retomamos caminho após o meu aviso que dali para a frente, só conhecia o terreno pelo Google Maps. A possibilidade de encontrar caminhos manhosos era grande. Seguindo as indicações da rota traçada por mim, serpenteamos por serras e vales, em estradas cada vez mais remotas, até nos surgir do meio do nada uma fantástica praia fluvial, de nome Área de Lazer do Oural. Estacionando mesmo na praia, quase deserta, apressamos-nos a desfrutar de um vigorante banho. Apetecia ficar lá o resto do dia. A tempo voltamos ao caminho. O próximo check-point era Fafe. Como não havia muito por onde enganar não prestei grande atenção ao OruxMaps deixando-me embalar pelas curvas. Sem aviso a Transalp espirra, tosse e engasga-se. Paro numa sombra e reparo no sorriso pouco inocente dos meus companheiros de estrada. Então onde anda a mesquinha fiabilidade das Honda? Não lhes dou grande conversa e trato de resolver a avaria que adivinhava. Um dos CDI andava a falhar há uns tempos. Percebi que tinha sido de vez, mas estava preparado com um de substituição. Problema resolvido e pouco depois surge Fafe para novo troço de ligação a casa. As auto estradas nunca têm grande piada, mas fica a nota de que a Vespa Cosa conseguiu manter uma velocidade de cruzeiro surpreendentemente boa.
Fica a ideia de repetir passeios deste estilo, com a regularidade possível, pensados por cada um dos elementos do Lambretta Invicta Clube Extreme Team. Mesmo sem Lambrettas.
Obrigado Hugo e Sérgio.












30 de julho de 2018

4onTour II



GPS, mapas, rotas, road-books, planeamentos. Há inúmeras maneiras de não nos perdermos em passeatas por locais novos, mas ao que parece eu continuo imune a acertar com os caminhos à primeira, o que não é necessariamente mau. A descoberta por tentativa leva-nos amiúde por locais ainda melhores do que os planeados.
Rádios prontos, roteiro desenhado numa espécie de Road-Book, Waypoints guardados no telemóvel e era chegado o dia de arrancar para o nosso devaneio anual.


Após uma noite com as meninas a dormirem juntas, para se ambientarem, o RB feito em casa levava-nos, depois de um bocadinho de AE, pela N311 e N206 até Vila Pouca de Aguiar. No entanto, algures numa rotunda, consegui escolher a saída errada, quando demos por nós imersos no maravilhoso Alto Douro. Absorvendo o deslumbre das paisagens, procuramos calmamente o caminho até Vila Pouca de Aguiar, a partir de onde passaríamos a seguir aproximadamente os caminhos do ultimo Lés a Lés.
É já o segundo ano consecutivo que, por iniciativa nossa, falhamos aquele evento. Não porque não seja um passeio fantástico, mas sim porque o fazemos desde 2008 e é preciso variar. O aumento para mais um dia também não entusiasmou.
Depois do passeio por Espanha no ano passado, o Galizasturias, decidimo-nos este ano por terras Lusas.
Inspiramos este 4onTour em percursos de edições anteriores do Lés, Shaken not Stirred.
O resultado foi um atravessar do país por alguns dos sítios que nos recordávamos ter gostado, sem compromissos nem percursos rígidos, ao ritmo da nossa diversão.
Iria ser mais ou menos assim... talvez:









Por terras de Santa Marta de Penaguião, São João da Pesqueira, Foz Côa, Almendra e Sortelha, começamos a sentir a paz da interioridade. Pernoitaríamos, a correr bem, em Figueira Castelo Rodrigo.




Chegar lá não foi do mais fácil. A partir de Sortelha não tínhamos rota definida. Algumas hesitações e demoras para guardar locais na retina, fizeram-nos chegar já de noite, não tendo ajudado os médios da minha Vespa terem entregue a alma ao criador, ou o termos sido perseguidos por uma matilha de cães numa qualquer serra! Ficamos com pena de não termos tido mais luz neste maravilhoso local. Somávamos aqui já uns 450Km em 14 horas de condução.





Retemperados por um bom jantar, que incluiu uma sopinha com acompanhamento de Kuduro por dançarinos locais e uma boa noite de sono, regressamos à estrada para perceber que por estas terras há:



Hoje faríamos passagem surpresa pelo Fundão, mais exatamente em Donas. Não surpresa para nós, pois isso temos a cada curva, mas para visitar a família do Vasco, lá em férias, com o intuito de ganharmos uma foto de grupo :) . Até lá fizemos por perder nem um castelo.




Duas de letra e fomos almoçar. Uma esplanada à sombra numa terra do interior é algo que nunca se recusa. Simpaticamente e eficientemente atendidos por uma empregada que, talvez entusiasmada pela beleza... das nossas máquinas italianas, afirmava-nos que também gostava de andar de mota e que tinha um outro emprego, seria, dizia ela, "prostituta"!! Reparando na atrapalhação do erro, fizemos de conta não ter percebido, mas ficamos sem saber qual a outra atividade da menina!
Antes de arrancarmos fui buscar um colírio para os olhos, que me incomodavam desde a noite anterior. Poderia ter sido a visão dos dançarinos ao jantar :)
Nestas estradas remotas, cada local é uma surpresa sendo exemplo disso a visão de um rebanho guiado por uma carrinha. Pacientemente e a gostar até, seguimos ao passo das ovelhas.

Gravado pelo Vasco

Janeiro de Cima, Ademoço, Oleiros, Vila Velha de Rodão, Nisa, Póvoa e Meadas, são tudo lugares onde as imagens falam muito melhor que a palavra.





Estava calor e as abundantes curvas convidavam a um ritmo divertido, tanto que a X8 do Vasco começou a mostrar as lonas do pneu traseiro, o que nunca é bom sinal.
Felizmente em Portalegre, apesar de ser sexta feira e dia de Portugal-Espanha no Mundial de Futebol,  conseguimos um pneu novo.




O final do dia foi em Cabeço de Vide, onde ficamos num excelente e sossegado turismo de habitação.




Tanta era a calma e o sossego, que o Miguel o Paulo trataram de acabar com eles.






No dia seguinte, com um farto pequeno-almoço e ansiosos pelos dois dias de passeio que  tínhamos pela frente, seguimos a visitar a antiga estação de caminhos de ferro de Vaiamonte




Seguindo para Arronches e poucos Kms feitos quando a x8 sofre de um aparente problema de incontinência urinária. À sombra de uma Igreja e de canivete na mão, rapidamente se percebeu a falha numa artéria (tubo) de combustível e mesmo sem anestesia foi a anomalia corrigida.



Rapidamente voltamos ao caminho, que se revelou longo, com pouco interesse e muito, muito quente. Em Ouguela vimos pouco mais que uma mão cheia de pessoas enquanto apontávamos a Campo Maior que nos ofereceu um pequeno mas bom troço entre vinhas em terra, até ao almoço em Elvas.




Sempre sob um sol abrasador,  atravessamos o Alqueva numa recta sobre a barragem que convidava a acelerar mais um pouco. Calor e velocidade de ponta não são necessariamente uma boa combinação para estes motores "vintage" e o Miguel conseguiu ter um mini-agarranço.





Lá paramos numa minuscula sombra para descansar o motor da Vespa dele. Estávamos quase em Amareleja para onde seguimos até às Minas de S. Domingos.




Em Alcoutim viramos para o interior até encontrar a tão na moda N2,  gratificantemente num dos pontos onde ela é mais interessante. Aproveitamos para gastar um pouco as laterais dos pneus, num rápido curva contra curva.
A chegada ao ponto de dormida, já sem luz natural, reservava-nos bons quartos com ar condicionado, restaurante com petiscos e tempo para duas de conversa.


No dia seguinte acordei com vontade de ter um dia mais interessante que o anterior. Mal imaginava  a oportunidade que me iria surgir.
Brindados com estradas interessantemente retorcidas, víamos desfilar a vida do interior serrano e desconhecido das gentes Algarvias afastadas da costa. Muitas passagens em terra, solidão, navegação nem sempre fácil e várias passagens a vau em linhas de água mais fundas que o que tínhamos antecipado.














Quando nos deparamos com a Ribeira de Odearce, na zona da Vidigueira, com um aspeto que não nos estava a permitir perceber a dificuldade da travessia. Paramos para uma inspeção a pé. Na água turva o Vasco mostrava-nos uma profundidade que lhe cobria os joelhos enquanto fazia cara de desconfiado.


O Miguel com cara de poker olhava para trás. O Paulo embrenhava-se no Road-Book creio que à procura de uma alternativa.
Comecei a perceber que se desenhava a possibilidade de termos de retornar vários km's em terra, o que demoraria tanto tempo que nos iria obrigar a procurar depois uma estrada rápida, rumo ao destino. Não queria isso. Nestes passeios não quero estradas boas, rápidas, modernas. Quero explorar, descobrir, sujar-me e sorrir. Tomei então uma decisão normalmente incorreta numa diversão de grupo e resolvi determinar eu o que iria acontecer. Consciente de que estávamos a horas de qualquer tipo de ajuda mas conhecendo bem os meus companheiros de estrada que não viram a cara a uma boa e de preferência parva ideia, sem consultar ninguém liguei a Vespa e como de olhos fechados, avancei.
A água ameaçava ser demasiado profunda. O fundo era muito irregular. Já perto do final desliguei o motor para evitar a entrada de água no cilindro, o que iria comprometer a saúde do mesmo e paro na outra margem com água castanha a escorrer por todo o lado. Tremiam-me as pernas da descarga de adrenalina, mas sem os deixar perceber isso, chamei-os. Tinha de me redimir e entrei logo na água para os ajudar (e não lhes dar tempo para pensar). Quase egoisticamente tinha acabado de obrigar a comitiva a copiar a minha parvoíce. O Miguel manteve a cara de Poker e atravessou desligado. O Paulo repetiu o meu método e safou-se. A barcaça X8, tal como as outras, após uma pequena ajuda, parou na margem íngreme a escorrer. Minutos depois todas pegaram como se nada tivesse acontecido.






Nós os quatro somos um grupo invulgar. Pensamos em sintonia, de maneiras totalmente distintas e no entanto tão complementares.
Neste ultimo dia Baleizão, Silveiras e Vendinha foram alguns dos lugares que ficaram no caminho que nos levou a Lisboa, após termos percorrido cerca de 100 cidades, aldeias e lugares nuns 2000 Km's de pura diversão.
Decidi deixar a Vespa em Lisboa para fazer um dia destes o caminho para o Porto nas calmas.



Obrigado a vós.