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28 de junho de 2020

LICET e o CDI arrefecido a ar da série O meu quintal

O calor é uma questão importante tanto dentro dos casacos como dos motores. Há quem lide bem e quem precise de uma ajudinha.
O Hugo tem uma mota bonita. Da classe xassos mas bonita.
Eu tenho uma mota boa. Da classe velha mas boa.
O Sérgio tem... bem, o Sérgio tem... tem uma coisa de farol amarelo com cesto e marca de instrumento musical. Pega quase sempre.
O Hugo não avaria. Através de métodos sobrenaturais, ela faz avariar motores de outros veículos, carros incluídos, em vez de assumir uma tosse ocasional.
Eu avario, ou melhor, reduzo temporariamente a performance. A minha Honda tosse, espirra e resfolega, mas continua a andar. É velha, já mostrou todos os algarismos do odômetro e dentro das suas capacidades inatas continua a engolir estrada. É tão indecisa como teimosa. Mesmo no auge de uma avaria não desiste de respirar fundo e retomar a marcha como se nada tivesse acontecido. Se isto é uma coisa boa? Bem, sim e não. Claro que a perspectiva de ela fazer tudo para não te deixar à mercê que uma qualquer assistência em viagem no meio de nenhures é de louvar. Já o resolver reduzir a velocidade para 25% a meio de uma ultrapassagem a um camião de 18 rodados e com atrelado duplo é já discutível. Bem como aumentar a potência em 175% a meio de uma curva em que o patim estava já a milímetros de tocar no asfalto, também não se afigura como uma grande ideia, Já no aumento do nível de adrenalina, ambas as situações mostraram eficácia.
O Sergio segue certo e seguro. Sorridente atrás de um guiador que daria para pendurar roupa a secar, a cheirar a gasolina mais que uma refinaria e à sombra da desculpa de que a Transalp é que não anda, calcorreia o caminho a 40 à hora nas descidas como se estivesse em pleno circuito, com o farol amarelo (com cortinas) aceso. Em cada paragem corria à nossa frente para iniciar uns bons 10 minutos a dar ao pedal da sua....haaaa, coisa de marca de instrumento musical. Também não sei porquê mas aquele depósito de nafta pareceu-me familiar... quase nacional,,, sei lá.
Afinal estes três o que têm em comum?
São amigos e gostam do desafio de passear com máquinas maduras que ameaçam avariar a cada curva, mas que nem por isso deixam de nos levar (e a maior parte das vezes trazer de volta) a conhecer sítios magníficos, por estradas esquecidas entre natureza intocada, longe ou perto, com um restaurante de beira de estrada ou uma mesa de piquenique pelo meio.
Entre Amarante e Mondim de Basto o traço curvilíneo que passa no Parque Natural do Alvão dá pelo nome de N304. Já o conhecia e por isso mesmo aceitei logo a ideia de o percorrer de novo. As serras têm algo que me cativa. Talvez o silêncio, ou a calma, ou apenas a beleza. Mais de certeza um misto de tudo.
Passa lá um rio. Dá pelo nome de Olo e tem um parque de merendas de uma beleza inolvidável. O fresco da sombra recordou-me que poderia ser boa ideia oferecer a algumas peças da minha mota o privilégio de se manterem frescas. Poderão os mais cépticos afirmar a pés juntos que tal instalação não iria adiantar de nada. Tecnicamente até poderiam ter razão, mas a possibilidade, usada amiúde, de poder dar umas palmadas no circuito que intermitentemente continuava a falhar, como se no lombo de um cavalo estivesse a usar o pingalim, tornou de certeza a viagem de regresso bem mais divertida.
Obrigado Hugo e Sérgio.
(29/05/2020)

Foto de Hugo

Foto de Sérgio

Foto de Sérgio

Foto de Sérgio

Foto de Sérgio







Foto de Hugo

Foto de Hugo

Foto de Hugo

Foto de Hugo

Foto de Hugo

15 de junho de 2020

A ponte da Varela e a Cicloria da série O meu quintal

Uma das primeiras zonas no Norte de Portugal a ser afetada pela pandemia de Covid-19, foi a de Ovar. Cercada sanitariamente durante cerca de um mês, com as estradas cortadas por barreiras metálicas ou de cimento, algumas até com patrulhamento policial, esteve fechada ao mundo e do mundo. Sim, há o Telefone, o Zoom, o WhatsApp, mas somos Portugueses e como tal gente de afetos, de coração, de olhos nos olhos. Custou muito. Mas hoje estão abertas as “grades”. Aos poucos a vida retorna ao que agora preferimos chamar nova normalidade, mesmo sem sabermos muito bem o que tal significa. Depois de tanto tempo fechados, isolados, prisioneiros ainda que no nosso próprio lar, aceitamos de bom grado o pouco que venha. Mesmo ali ao lado fica um dos maiores areais a Norte, a praia de S. Jacinto, que em conluio com a Ria de Aveiro, escondem uma maravilhosa estrada, pouco retorcida mas com um magnifico espelho de água sempre ao lado.

Escolhemos em mais uma fase de desconfinamento motociclístico ir até lá.

Tragada a via rápida que nos tira da urbe, a N109 começa a animar-nos e deságua-nos no inicio da N327, onde o Restaurante Areinho, embora abandonado há muito, mantem à sua volta um espaço aprazível e sossegado para esticarmos as pernas.

(22/05/2020)

Algumas curvas a seguir e encontramo-nos com uns amigos que vieram de mais a sul. Desde Fevereiro que não tinha estado numa esplanada de um café. Com o sol e a companhia dos amigos a aquecer-nos, espraiamos o olhar por onde já não andam moliceiros na labuta. Agora só servem turistas e claro, estão todos parados.

Foto de Rogério

Foto de David

Foto de David


Atravessamos a Torreira e fomos à praia. A imensidão do areal deixa respirar, deixa correr, deixa gritar. Brincamos a desafiar as ondas que quebravam na areia, apanhamos sol com equipamentos de segurança meio vestidos. Não, não falo de mascaras, viseiras e afins. Os motociclistas desde há muito que se protegem. Usam luvas, capacetes onde só cabe um e na estrada vão a bem mais de dois metros de distância. Mesmo na praia mantivemos os cuidados e não foi por isso que gostamos menos.


Foto de Rogério

Foto de Rogério

Foto de Rogério

Foto de Rogério

Fomos almoçar. Não em restaurante. À boa maneira portuguesa levamos farnel. Do lado da estrada oposto à ria, estende-se a Reserva Natural das Dunas de S. Jacinto. Além de bons trilhos para caminhadas, existem também aqui locais preparados para uma paragem gastronômica. Cada um levou o seu repasto. A única partilha foi a do fogareiro, que no final nos aconchegou com um café quente.

Foto de Rogério

Foto de Rogério

Foto de Rogério

Foto de Rogério

Foto de Rogério

Foto de David

Um teve de regressar nesta altura e os restantes decidiram atravessar na ponte da Varela entrando na CicloRia. Um caminho mesmo ao nível das águas que entra pela Murtosa e serpenteia com a água agora a estibordo. No Cais da Bestida tiram-se fotos em moliceiros e passa-se a caminho de terra. Mama Parda, Ameirinhos e o caminho fica estreito. Estaciona-se, sobe-se ao passadiço onde só se ouve o vento. Banhamos-nos de paz.

Foto de Rogério


Foto de Rogério







Sempre em ritmo reticente, pois ali é que se estava bem, voltamos à via rápida que nos levou a casa, mas não sem antes termos comprado umas cerejas na beira da estrada, com toda a certeza por desinfetar. Vendidas por um rapaz de mascara cirúrgica com o nariz de fora, que nos faz saber que mesmo ao nosso lado estavam o Presidente da Republica Portuguesa e respetivo Primeiro-ministro, acompanhados de uma comitiva de uma centena de pessoas, provavelmente encarregues da desinfeção preliminar do caminho, que como nós tinham vindo celebrar a liberdade. Duvido que tenham conseguido pois não vieram de mota.

Obrigado à minha companhia de estrada.

21 de maio de 2020

Duas rodas pós-apocalípticas

Oito semanas e quatro dias depois, recomeço a exigir a minha rotina de volta.
Sem demasiadas esperanças de que o problema tenha sido debelado por decreto, mas consciente da necessidade de viver, volto a procurar o ar livre.
Sozinho, distante e protegido.
(14/05/2020)









As ultimas curvas antes do Apocalipse


10 Março 2020.
De novo eu e os estarolas do costume combinamos em 5 minutos mais uma vadiagem.
Que tal até Amarante e depois perdermos-nos por lá? Nem foi preciso dizer duas vezes.


Chegados à antiga ponte sobre o Tâmega, é impossível resistir a não parar e usufruir do ambiente. Após um pequeno almoço numa famosa confeitaria local, troca-se duas de conversa, espreita-se a Biblioteca e a Igreja de S. Gonçalo, onde há quase 28 anos esperei no altar pela minha mulher.

Imagem por Rogério

Imagem por Rogério

Imagem por Rogério

Combina-se seguir o IP4 e desviar para Aboadela, marco importante por altura das invasões francesas, tendo ocorrido aqui uma das mais violentas batalhas de então, com a derrota das tropas francesas contra três corpos de cavalaria portuguesa.

Imagem por Rogério





Imagem por Rogério

Imagem por Rogério

Após este momento de historia e contemplação da ponte de fundo de rua e maravilhosas margens,  rumamos a Vila Real onde nos foi servido um delicioso repasto, como é já habito em terras para lá do Marão. Imaginávamos lá nós que seria a nossa ultima visita a um restaurante, até pelo menos finais da Primavera!
De volta à estrada fomos espreitar a Torre de Quintela, citada por Castelo Branco, com liberdade literária, como um dos cenários do romance "O Anátema".



Aqui bem perto estava a Barragem da Albufeira do Alvão que mereceu de igual forma uma paragem.
Pelo Parque Natural do Alvão seguimos a Lamas de Olo e Ermelo onde apanhamos a também já famosa N304, que acabou por nos levar ao IP4 para o regresso a casa.

Imagem por Rogério

Imagem por Rogério

Imagem por Rogério


A liberdade é muitas coisas, apresenta-se de muitas formas e esconde-se normalmente atrás das escolhas mais simples.


“Don’t know what you got (till it’s gone)”🎶 😢