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30 de dezembro de 2009

Honda Transalp XL600V


Há escolhas que não se explicam, fazem-se. Eu nunca fui sequer muito adepto das motas na sua versão “grande”. Sempre me interessaram muito mais as Scooters se bem que conviva bem com elas como se tem percebido por passeios em que tenho participado. No entanto há algo nessas máquinas, grandes, fortes, com presença que afinal até me atrai. Confesso que no tempo da adolescência, ter uma “máquina” era um meu desejo, bem como de quase todos os adolescentes, bem entendido, mas lá me fui contentando com a Heinkel e muito bem, convenhamos.
O tempo no entanto não deixa esquecer tudo e mais cedo ou mais tarde aqueles desejos mais escondidos acabam por fazer as suas reaparições.
Deve ter sido o caso. Ainda quase não a usei e também deve ser por isso que aquele porte altivo, pernas compridas e ronronar de leão me intimidam um pouco. Mas ainda bem. As motas são para serem tratadas com respeito. São como as mulheres. Com calma dão-nos muito prazer, mas se abusarmos pode ser uma chatice.

14 de dezembro de 2009

Moscas da Figueira II


Quem esteve no Camping perceberá por que motivo este ano na Figueira não havia moscas!
De qualquer forma não levei a T5, tendo escolhido a minha montada mais experiente e fiável, a Heinkel, para me levar a uma almoçarada com amigos. Do Porto saíram os suspeitos do costume, e debaixo de uma temperatura que apesar do Sol embirrava em nos lembrar que estamos no Inverno, pela hora marcada lá arrancamos do Dragão. Em velocidade de cruzeiro, ou seja despachadinhos, lá chegamos a Aveiro pelas 9:30h. Tempo para um cafézinho enquanto esperávamos para engrossar a comitiva com uma Indiana e uma Portuguesa, dado que Italianas e Alemã já tínhamos.

Ajustando a nossa velocidade para o ritmo de que a Carina gosta e passando a usar estradas nacionais a viagem ganhou outro encanto. Como escreveu o nosso amigo TodayAdventure: "The purpose of a trip is the trip itself. If you go too fast you miss all the fun"
E que verdade é esta. Deve ser também por esse motivo que gostamos tanto de scooters.
11 horas e pouco estávamos a estacionar na Marginal para nos libertarmos das várias camadas de roupa que nos tinham protegido das baixas temperaturas e a admirar o extenso e bonito areal, pontuado pela presença de algumas scooteristas femininas que tanta beleza emprestam a estes nossos encontros. Ainda por cima uma delas é uma excelente fotógrafa. Obrigado anacristinarm, estás nomeada fotógrafa oficial do ScooterPT :)

Após a chegada dos restantes comensais (O mexe veio de carro com a Maria :twisted: ) e duas de conversa com o meu companheiro de equipa do LaL, o S800 e ainda colagem de autocolantes (já agora, ao ver uma qualquer Lambretta chegar fui oferecer um toclante ao dono mas este olhou para mim com ar desconfiado e apenas me "autorizou" a colar o dito no pneu suplente!! Como se aquela pintura de "orige" valesse mais que o toclante! Quem seria o cavalheiro? Ainda por cima não apareceu no almoço! Provavelmente alguém que tirou a scooter da redoma por engano? Ou apareceu apenas para ter uma desculpa para não ir à missa com a Maria? Enfim). Lá seguimos então para a passeata pela serra, onde o Hugo, aquele tipo estranho de boné e mochila amarela com uma Top-Case da Givi na roda baixinha fez questão de parar para me recordar do local onde da ultima vez a T5 fez birra!

Magnifica paisagem e muito frio mais rumamos para o restaurante, onde desta vez o nosso conhecimento já nos permitiu escolher o talher certo. Barrigas confortadas, muita conversa e fica já o agradecimento especial ao Marrazes, ex-dono de uma magnifica T5 que agora pertence a uma miúda gira que por acaso, mesmo por mero acaso, é namorada dele e nossa única companheira de estrada aos comandos, mas dizia eu, fica um agradecimento especial por se ter lembrado de partilhar connosco a passeata que lhe apeteceu fazer. O ScooterPT é isto. Alguém que se lembra de passear com alguns amigos e publica a intenção para que todos possam aparecer. E apareceram suficientes.
Hora de levantar ancora, pois de scooter o país é grande e mais uma vez o tipo estranho de boné e mochila amarela com uma Top-Case da Givi na roda baixinha a querer chamar a si as atenções, desta vez esvaziando o pneu da frente para poder mostrar a todos a habilidade que tem em resolver problemas com a anilha!
Para a estrada que se faz tarde e a comitiva nortenha escolhe a Auto-Estrada pois o frio e o tempo apertava. Liderados pelo Paulo Salgado, a fazer desjejum de scooter na sua Gatinha Bravita com "faro baso" e Target no pneu suplente, lá fizemos N109 até Mira e depois auto-estrada até casa. Muito trânsito, muito frio e numa velocidade máxima de 99Km/h, lá percorremos os 144Km's em 2 horas. Pelo caminho paramos para uma café em Ovar e no Porto o Paulo ainda seguiu para Guimarães.
No pulso levei um brinquedo que denunciou a nossa passagem :D

6 de dezembro de 2009

Scuderia Sereníssima


Poque agora chove, sabe bem recordar o calor:
Queria contar o Lés-a-Lés, mas afinal o Lés-a Lés não se conta... sente-se.
Sente-se na alegria, sente-se na aventura, sente-se na dor, no frio e no calor, sente-se na pena, no orgulho e no desafio, sente-se na paz, na luta e na chegada. Neste nosso país de contrastes, o LaL consegue, com apenas algumas horas de permeio, levar-nos do mais recôndito cantinho serrano onde cada aceno simboliza um sorriso, para a urbe de trânsito, poluição e desenvolvimento, de altitudes de 1500 m para o profundo vale, da neblina de sombras frias para o ar tórrido que nos desafia a tirar o casaco.
Deixa-nos na memória a beleza selvagem da natureza em bruto e a criança da aldeia que sorri ao ver passar a caravana por de momento único se tratar. Sucedem-se caminhos de terra, estradas esburacadas, trilhos e alcatrão esbranquiçado. Misturam-se motos equipadas para irem ao Alasca com pequenas motorizadas que em tempos faziam suas estas passagens, scooters modernas com máquinas clássicas. Fazem-se Km´s por causas, revêem-se amigos e desafiam-se limites. Deixam-se em alvoroço lugarejos e em festa aldeias. São duas etapas que para muitos é uma volta a Portugal. Uns encontram a oportunidade para tirarem a sua máquina da garagem e devolvê-la ao seu habitat, outros apenas intensificam a sua utilização quase diária. Mais do que os motores, é a inter ajuda dos motociclistas não só portugueses, mas também espanhóis, franceses, alemães e angolanos, que ajudam a transpor serras e vales. Se se gosta de sensações e sentimentos fortes, o LaL é a escolha certa, mas cuidado, após experimentarem facilmente ficarão viciados e sem conseguir deixar de repetir. Eu que o diga pois após completar com sucesso (e muito atraso) a passeata do ano passado, lá voltei a instalar o leitor de Road-Book e o conta Km´s digital, preparei o saco e perguntei à minha máquina preferida, uma Heinkel Tourist 103A1, com a respeitável idade de 49 anos, se lhe apeteciam 2000Km’s. Ela nem hesitou em aceitar e depois de chegar o Vasco, já com 300Km’s em cima na sua pré-clássica Honda Helix, lá seguimos juntos para Boticas onde se iniciou este 11º LaL. Formávamos uma equipa diferente, com a soma da idade das máquinas a chegar aos 64 anos mas com a ideia da reforma ainda longe. Já com a logística antecipadamente tratada e após jantar e pernoita em Amarante, passamos o Marão ainda com as sombras frias de um aguaceiro nocturno, chegando a Boticas pelas 9:00h. Mesmo a tempo das verificações técnicas e atribuição do número de equipa. “Three is a magic number”, canta Jack Johnson e nós não poderíamos estar mais de acordo. Com o número de equipa 3 atribuído, dirigimo-nos à Casa de S. Cristóvão, um alojamento de turismo rural a 50 metros do palanque gerido por gente muito simpática e disponível, onde nos foi atribuído o quarto número...3. Saída para o Prólogo, um périplo servido sempre no dia anterior a esta prova, pelas serranias do Barroso e aldeias do concelho, mostrando-nos maravilhas como o relógio de sol em Alturas ou o forno comunitário de Covas do Barroso.
Regressados com algumas baixas na comitiva, tal foi a dureza do passeio, a tempo de recebermos a grande surpresa do dia com a visita do Paulo Salgado na sua Heinkel, que terá afirmado à mulher quando saiu de Guimarães que iria dar uma volta para carregar a bateria! Obrigado pela tua presença, repetida na madrugada seguinte, dessa vez acompanhado pelo Eusébio. A vossa força surtiu efeito. Ainda tempo antes do jantar oferecido pela câmara municipal de Boticas para assistir a uma chega de bois, que eu até à altura não fazia a mínima ideia do que se tratava, onde ficou célebre o comentário, dito com entusiasmo por um verdadeiro fã local da actividade, “Grande boi, isto é que é um boi”!!
Pelas sete da manhã do dia seguinte, iniciamos a 1ª etapa que nos levaria a atravessar o Douro vinhateiro e as Beiras, pela rota histórica do Barroso à Beira Raiana em 11 horas e meia de condução a completarem uns tortuosos 412 Kms. Fomos a segunda equipa a partir, fotografados de imediato pelo Paulo e Ozébio, uma vez que a equipa 1 foi forçada a desistir devido a um infeliz despiste no dia anterior. Assumimos de imediato a liderança da caravana e graças à boa coordenação entre mim e o Vasco, mantivemo-nos durante quase todo o dia nos lugares da frente. Passagem por Pedras Salgadas e pelo Tâmega a caminho de Tresminas, exploração aurífera do tempo dos romanos, café oferecido pela câmara em Murça, seguindo por Linhares e Ansiães, com o Douro por companhia no cachão da Valeira enquanto que a subida da temperatura fazia já adivinhar a canícula que nos acompanharia até Olhão. Passando por Ranhados a “Scuderia Sereníssima” chega a Mêda para o almoço oferecido por esta câmara, a cumprir religiosamente o horário estabelecido. Retemperadas as forças e confortados os estômagos seguimos por Marialva, Pinhel, Malhada Sorda e Castelo de Vilar Maior. No Sabugal esta câmara municipal brindou-nos com um lanche servido em Alfaiates e rapidamente rumamos a Castelo Branco por Sabugal e Sortelha com passagem ainda pelo Fundão.
Entrada em Castelo Branco, onde chegamos 5 minutos antes da nossa hora, permitindo-nos ser os primeiros a subir ao Palanque! Sim, a “Scuderia Sereníssima” comigo e com o Vasco, com uma Heinkel e uma Helix que em conjunto somavam quase a idade da reforma chegou a Castelo Branco em primeiríssimo lugar entre 874 motociclistas!
Durante o completo jantar ofertado pela câmara albicastrense, estivemos à conversa com a equipa 39, o Outeiro e o Fontes, estreantes nestas andanças, mas que souberam levar a cabo com sucesso a passeata e ainda nos acompanharam no regresso a casa.
A madrugadora partida da segunda etapa foi dada às seis horas e meia com o tempo já quente apesar de encoberto. Aguardavam-nos 508 ardentes Km´s até Olhão, por um interminável Alentejo tórrido.

Travessia do Tejo em Portas do Ródão, com o calor a aumentar à vista dos sete metros de altura do menir da Meada. A Serra de S. Mamede começa a pôr à prova a capacidade de refrigeração dos travões das máquinas, com a Heinkel a portar-se bem nas acelerações entusiasmada pela Helix do Vasco que seguindo sempre uns 50 metros à frente, permitia-me avaliar antecipadamente as curvas e aproveitar assim ao máximo os 9,5Cv do motor da Heinkel. Ajudou aqui também muito o sistema de intercomunicadores com que nos equipamos, com o Vasco a relatar a estrada que me esperava. Seguiu-se Flor da Rosa, Crato, Alter do Chão e Veiros com o seu belo pelourinho em mármore, Borba e Vila Viçosa, Alandroal e Mourão.
Chegados à nova aldeia da Luz, talvez a única no país com ar condicionado no tasco local, tempo para uma salada fresca a servir de almoço. Os parabéns à câmara de Mourão pela escolha. Com o calor sempre a aumentar, um vislumbre à saída de Amareleja da maior central foto voltaica da Europa e entrada em Moura onde eu já não ia há mais de 20 anos. O termómetro marcava para cima de 40ºC! Serpa e a dura descida ao Pulo do Lobo... que tivemos de voltar a subir. Finalmente na fronteira com o Algarve, através da ribeira do Vascão, caminho muito duro e onde sentimos algum orgulho em a termos atravessado sem sobressaltos, ao invés da algumas trails que estariam, em principio, no seu habitat natural. Seguiu-se a Serra do Caldeirão, poeirenta e quente, a parte mais difícil para mim, feita sem travão de trás e com o da frente tão quente que a sua actuação quase não se notava. Valeu-me o valente motor de 4 tempos da Heinkel, com algumas reduções e entradas em curva a serem feitas de forma mais brusca que o aconselhável. A ponte romana de Quelfes anunciou-nos a proximidade do final que já ansiávamos em atingir. Entrada em Olhão, para nós triunfal, apenas uns 15 minutos após a hora ideal e subida ao palanque de imediato. Num cenário de festa onde ficam os agradecimentos à câmara desta cidade, elogiados por todos, entrevistados pela televisão e imprensa da especialidade, conseguimos nesta maratona provar a capacidade multifacetada das Scooters e de uma equipa motivada e organizada.
Obrigado à organização e em especial ao Ernesto Brochado, bem como ao meu companheiro de equipa, o Vasco.