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23 de julho de 2014

Marvão, o agricultor e a casa com flores

Nem sempre corre totalmente bem.
Como fui passar o fim-de-semana a terras de Marvão, mais exatamente no fantástico Monte de S.Sebastião, levei a bicicleta para tentar repetir o trilho Beirã-Areias que tinha já feito uma vez. Houve uma pequena parte do caminho que da outra vez tinha atalhado por pressões de tempo e porque não me pareceu lá muito interessante. Desta vez resolvi conhece-lo. E ainda bem, porque acabou por ser das partes mais giras da rota. Rápida, exigente e com uma descidas em pedra equivalentes a 10mg de adrenalina diretamente numa veia. Só que…
Com a temperatura a rondar os 28º e sem andar de bicicleta desde há tempo demais, as minhas pernas ressentiram-se e a uns 6 Km’s do final comecei a ter cãibras constantes. Lá parava um pouco, alongava e a coisa melhorava. Mas o trilho é exigente, com caminhos muito irregulares de pedra um pouco a subir e rapidamente tinha de parar de novo.
A apenas 2 Km’s do final, já numa estrada, linda por sinal, desisti e resolvi continuar a pé. Mas nem assim. O femoral não perdoava e nem caminhar conseguia. Nunca tal me tinha acontecido. Estava prestes a pegar no telemóvel, que agora nunca fica sem bateria nem com os programas de navegação todos ligados, graças a uma bateria externa USB que agora uso e eis que saído de um caminho, entra na estrada um lavrador com uma Pick-Up de cor indefinida e aspecto de muito trabalho. Faço-lhe paragem e peço boleia.
Num Alentejo já profundo, algo fora do habitual é bem-vindo para quebrar a monotonia do dia a dia. Ficou ele tão contente como eu. Atirei a bicicleta para a caixa aberta da carrinha e instalei-me na cabina onde ele se preocupava em tirar a terra do banco em que ninguém se devia sentar há muito.
Vou trabalhando a terra, que sou sozinho e o que é que hei-de fazer? Nunca falo com ninguém e por isso hoje nem trouxe os dentes, explicava-me com um sorriso desdentado e sincero.
Por ele até me levava a casa, mas lá lhe expliquei que tinha o carro na estação.
Triste ver pessoas boas tão sozinhas.
A meio do trilho tinha passado por Santo António das Areias, onde na Praça de Touros, sim, mesmo no edifício da Praça de Touros, debaixo da bancada, vive a Dna Maria Teresa.
Já tinha conversado com ela uma vez ou duas. Tem a entrada repleta de plantas e flores, que se percebe serem o seu orgulho. Parei à porta e chamei. Logo apareceu, com um sorriso tão sincero como o do meu motorista desdentado. Lembra-se de mim, pergunto?
Claro, já cá esteve a tirar fotos às minhas flores e outra vez de bicicleta!
Boa memória, ou pouca gente de fora. Ou as duas coisas.
E posso desta vez tirar-lhe uma foto com a minha bicicleta?
Diz que sim com uma alegria que me contagiou.
Fotos tiradas, agradeço-lhe e ia-me embora.
Olhe, queria pedir-me uma coisa!
Pode por favor pôr esta foto no Facebook?
Fiquei abismado. Aquela senhora já avançada na idade, que mora debaixo de uma bancada numa praça de touros de uma terra minúscula do Alentejo profundo sabe o que é o Facebook!
É que é para os meus netos verem!
Claro que sim. Não se preocupe. Despedi-me e continuei.
E agora? Como vou arranjar maneira dos netos verem a fotografia da avó à porta de sua casa, ladeada pelas suas plantas e a segurar uma bicicleta de montanha?
Não sei, mas arranjarei maneira
Para já escrevo isto, pode ser até, que alguém que se tenha dado ao trabalho de ler até aqui, conheça os netos. Agora vou imprimir a foto e enviar por correio para a Dona Maria Teresa.

Foi uma tarde gira.













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